01

Euclides da Cunha teve seu primeiro contato com o Vale do Paraíba Paulista logo após sua formatura, em 1892, na Escola Superior de Guerra, quando foi designado a trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil, no trecho paulista da capital à cidade de Caçapava.

Em 1895, entra para a superintendência de obras públicas do Estado de São Paulo, sendo nomeado chefe do 5º Distrito de Obras Públicas do Estado, e mais tarde do 2° Distrito, com sede na cidade de Guaratinguetá, em 1901.

Designado chefe de obras públicas, opta em residir na cidade de Lorena com a esposa Ana da Cunha[1] e os filhos, por conta do importante Colégio São Joaquim, afamada instituição de ensino masculino, onde matriculou seus filhos Sólon Ribeiro da Cunha e Euclides Ribeiro da Cunha, que lá estudaram até o ano de 1905. Neste momento a cidade de Lorena era, segundo o pesquisador Francisco Sodero Toledo[2] , “uma pacata, bucólica e provinciana cidade localizada às margens do Rio Paraíba, que ainda margeava os terrenos em frente à sua igreja matriz. A população do município era de aproximadamente 13 mil habitantes, a maioria residente na zona rural”, o que pode ser constatado em uma carta que Euclides da Cunha envia a Coelho Neto[3] falando sobre a tranquila Lorena: “o vento sul que está aí destoando as roseiras de Campinas sacode, neste momento, as palmeiras imperiais da minha melancólica Lorena”.

E é na melancólica Lorena que ele chega como Engenheiro, profissão que só seguia por obrigação, como podemos notar no trecho da carta a José Veríssimo, em 12 de junho de 1903: “Continuo na minha engenharia fatigada e errante… Felizmente me acostumei a estudar nos trens de ferro, nos trolys e até a cavalo! É o único meio que tenho de levar adiante esta atividade dupla de chefe de operários e de homens de letras”.

E sai escritor de renome, já com um lugar no “Olímpio das Letras”, a Academia Brasileira de Letras, ocupando a Cadeira de número 7, sucedendo Valentim Magalhães[4] , cadeira que tem como patrono Castro Alves[5] . Sobre sua obra, segundo Sodero Toledo (2009), “em Lorena ele corrigiu e reviu os originais de „Os Sertões‟ e recebeu o primeiro exemplar da sua obra máxima, assombrando com seu talento a bucólica Lorena, refugiando-se, aturdido, durante dez dias nos sertões de Silveiras, Cunha e São Luiz do Paraitinga. Na sua estadia na cidade, recebeu a consagração nacional nos juízos críticos de José Veríssimo, Coelho Neto, Araripe Júnior, Medeiros e Albuquerque, Leopoldo de Freitas, Sílvio Romero, Vicente de Carvalho e tantos outros. E estando em Lorena, com apenas 37 anos, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, recebendo a segunda edição de „Os Sertões‟, em julho de 1903”.

Quanto a algumas passagens de Euclides por Lorena, o escritor Brito Broca[6] traz em seu livro “Pontos de Referência” algumas situações que vivenciou o engenheiro-escritor enquanto esteve vivendo na cidade de Lorena, estas contadas a Brito por Lauro Moreira, onde ele fala das superstições do autor de “Os Sertões”, contando que, certa vez, Euclides alarmara toda a vizinhança por causa de um gato preto que estava embaixo de sua cama e de lá não queria sair, vendo naquilo mau presságio. Outra história é que, em certa vez, no gabinete do Prefeito de Lorena, Euclides referia-se encantado a certa árvore da cidade, árvore centenária, em torno da qual tecia um verdadeiro poema, quando Arnolfo Azevedo[7] , que então administrava a cidade, deu uma boa gargalhada e disse: “Se o senhor souber que ontem mandei derrubar esta árvore, não servia mais para nada e estava causando ali séria atrapalhação…”. O escritor ficou interdito, mostrando-se verdadeiramente desolado com a notícia.

 

A casa em que viveu Euclides da Cunha em Lorena

02

Casa no início do século XX

03

Casa nos dias atuais

Mudando-se para Lorena, então, o Engenheiro Euclides da Cunha passa a residir, segundo o pesquisador Francisco Sodero Toledo (2001), em uma casa que “ficava no terreno onde hoje se eleva a Faculdade Salesiana, na casa do Coronel Vicente Barreiros, seu velho conhecido do Rio de Janeiro, no antigo solar do Barão de Castro Lima. A segunda residência, à rua 15 de novembro, antiga Princesa Imperial, atual Dom Bosco, arranjada pelo Dr. Arnolfo de Azevedo, ficava no centro da cidade, próximo à estação da Estrada de Ferro, a menos de 50 metros do Colégio São Joaquim”.

A casa que abrigou a família de Euclides por dois anos (1902-1903), segundo a Arquiteta Sonia Bueno Affonso[8] , pertence ao estilo arquitetônico eclético[9] , podendo-se notar que as janelas seguem um desenho que se aproxima do gótico, com suas bandeiras em forma de ogiva, mantendo a porta à mesma altura. Também pode-se notar que a pintura da casa, na foto do início do século XX, valoriza os detalhes, em primeiro plano pintadas em cor clara as molduras, pilastras, almofadas e beiral, e tom mais escuro nas paredes do segundo plano. Nesta ainda vê-se o telhado de quatro águas com telhas tipo capa e canal[10] que terminam em beiral. É uma casa edificada com porões altos, comum à época, e pilastras imitando colunas.

Na segunda imagem, datada dos dias atuais, percebe-se a platibanda[11], que substitui o beiral, imprópria para o clima chuvoso da região, o acréscimo de ornamentos, a inversão da pintura e a eliminação das bandeiras de vidros e janelas. É também conhecida como uma casa de “eira e beira”, pois era uma casa de chão e teto.

Nesta casa pouco ficava Euclides, pois vivia em inúmeras viagens pelo seu Distrito de Obras, tanto que, em determinada ocasião, o engenheiro é procurado pela senhoria da casa: “a senhoria da casa onde morava o casal Euclides da Cunha viajou de Pindamonhangaba para receber três meses de aluguel que seu procurador em Lorena não conseguia recebê-los. Ao saber da causa da visita, Euclides, seco no trato com a proprietária, chamou perante ela a esposa e disse-lhe, antes de retirar-se: „entrego quinhentos mil réis à Saninha todo mês para as despesas da casa. Entenda-se com ela‟” (SODERO, 2009).

E foi aqui que Euclides da Cunha organizou e corrigiu sua obra-prima, que, segundo depoimento, ao ver os erros que continha a primeira edição do livro, corrigiu um a um a canivete. Em carta ao amigo Escobar, Euclides da Cunha descreve o seguinte: “Tenho passado mal. Chamaste-me a atenção para vários descuidos dos meus Sertões, fui lê-lo com mais cuidado – e fiquei apavorado! Já não tenho coragem de o abrir mais. Em cada página o meu olhar fisga um erro, um acento importuno, uma vírgula vagabunda, um (;) impertinente… Um horror! Quem sabe isto não irá destruir todo o valor daquele pobre e estremecido livro?…”.

Segundo Gama Rodrigues, em referência a Ana da Cunha, “D. Sinhana, como Ana ficou conhecida na cidade, procurava compensar a ausência constante do marido com os cuidados da casa e dos filhos. Era tida como uma mãe carinhosa e cuidadosa. Era frequentadora assídua dos atos e práticas religiosas, preferindo sempre os realizados na Igreja de São Benedito, anexa ao Colégio São Joaquim, dirigida pelos Salesianos, que ficava a poucos metros de sua residência. Frequentava o Colégio com mais assiduidade, „talvez mais do que fosse desejado‟, procurando prestar, no arranjo das salas e pátios, os pequenos e delicados serviços de que a sensibilidade e o gosto feminino são férteis” (Gama Rodrigues, 1952, p. 10).

Em meio à controvérsia personalidade de Euclides da Cunha, este mesmo se descrevia como misto celta, tapuia e grego, e que, além de engenheiro, era escritor, sociólogo, repórter jornalístico, historiador, geográfo e poeta. Também o encontramos apaixonado pela natureza, o que fez com que uma figueira da cidade de Lorena passasse a ser sua.

 

04

“Esta figueira é minha, minha sim, em Lorena. Não é admirável? Pelo menos pretexto para … muitas saudades e cumprimentos, quem é cordialmente, Euclides da Cunha”.

No ano de 1952, por iniciativa da Faculdade Salesiana e da Prefeitura Municipal, foi inaugurada a Sala Euclides da Cunha, que hoje encontra-se junto ao Centro Salesiano de Pesquisas Regionais “Prof. José Luiz Pasin” e que reúne parte da sua mobília e documentações do período em que esteve vivendo nesta cidade.

 

05

Sala Euclides da Cunha – CESAPER (Centro Salesiano de Pesquisas Regionais “Prof. José Luiz Pasin”) UNISAL – Lorena – Foto: Jenyfer Ramos

[1] Ana Emilia Ribeiro nasceu no Rio de Janeiro. Também conhecida como Anna Emilia Ribeiro da Cunha, Ana Emilia Ribeiro de Assis, ou simplesmente Anna de Assis ou Saninha, foi pivô de um dos mais célebres crimes passionais da história do Brasil. Entre 1876 a 1951, foi esposa do escritor Euclides da Cunha e, depois, do militar Dilermando de Assis.

[2] Francisco Sodero Toledo é professor e pesquisador e autor de trabalhos sobre Euclides na Cunha no Vale do Paraíba.

[3] Henrique Maximiano Coelho Neto nasceu em Caxias, em 21 de fevereiro de 1864. Foi um escritor, político e professor brasileiro.

[4 ]Valentim Magalhães (Antônio V. da Costa M.), jornalista, contista, romancista e poeta, nasceu no Rio de Janeiro, em 16 de janeiro de 1859, e faleceu na mesma cidade, em 17 de maio de 1903.

[5 ]Castro Alves (Antônio Frederico de C. A.), poeta, nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da Cadeira n. 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.

[6] José Brito Broca é natural de Guaratinguetá. Foi um crítico literário e historiador brasileiro. Parte do acervo de sua biblioteca pessoal encontra-se na biblioteca do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

[7] Arnolfo Rodrigues de Azevedo é natural de Lorena. Foi um político brasileiro, presidente da Câmara dos Deputados e senador durante a República Velha.

[8] Responsável pela disciplina de Técnicas Retrospectivas da Faculdade de Engenharia, Arquitetura e Urbanismo, da Universidade do Vale do Paraíba – UNIVAP e Professora Coordenadora de Educação Patrimonial do Projeto NEPA (Núcleo de Estudos Patrimoniais e Ambientais), projeto de iniciativa do IEV (Instituto de Estudos Valeparaibanos).

[9] No Brasil, a arquitetura eclética foi uma tendência dentro do chamado academicismo, propagado pela Academia Imperial de Belas Artes e pela sua sucessora, a Escola Nacional de Belas Artes, ao longo do século XIX. Assim, o ensino arquitetônico acadêmico no Rio de Janeiro, que inicialmente privilegiou o neoclassicismo, mais tarde adotou o ecletismo de origem europeia. Em paralelo, surgiram instituições artísticas em outros lugares do Brasil, também comprometidas com a arquitetura eclética, como o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. Em São Paulo, o ecletismo arquitetônico teve em Ramos de Azevedo seu principal nome.

[10] Também conhecida como telha colonial, a telha capa e canal é constituída de argila e tem forma côncava, é assentada em fileiras, com posição invertidas.

[11] O termo arquitectônico Platibanda designa uma faixa horizontal (muro ou grade) que emoldura a parte superior de um edifício e que tem a função de esconder o telhado.

 

Referências:

BROCA, Brito. Pontos de Referência. São Paulo: Ministério de Educação e Cultura, 1903-1961. EVANGELISTA, José Geraldo. Lorena no Século XIX. São Paulo: Governo do Estado, 1978.

PASIN, José Luiz (org.). O Outro Euclides – O Engenheiro Euclides da Cunha no Vale do Paraíba – 1902 – 1903. Lorena, 2002.

NOGUEIRA. Walnice. GALOTTI, Oswaldo. Correspondência de Euclides da Cunha. São Paulo: EDUSP, 1997.

SODERO TOLEDO, Francisco. Igreja, Estado, Sociedade e o Ensino Superior: a Faculdade Salesiana de Lorena. Taubaté: Editora Cabral, 2003.

_________. Euclides da Cunha em Lorena. In: José Luiz Pasin: O Outro Euclides. Lorena: Unisal, 2002, p.149-162.

 

Web bibliografias:

RODRIGUES, Antônio Gama. Euclides da Cunha em Lorena (1902-1903). Lorena, São Paulo: F.S.F.C.L. de Lorena, 1952. In: TOLEDO, Francisco Sodero. Euclides da cunha no Vale do Paraíba (1901-1903). Disponível em: www.valedoparaiba.com/terragente/artigos/art0162001.html.

TOLEDO, Francisco Sodero. Euclides da Cunha e os Salesianos em Lorena. Disponível em: www.valedoparaiba.com/terragente/artigos/art0172001.html.

Compartilhe